O dia começou com uma seca de duas horas a ouvir gente falar da «economia azul», discurso que conheço vai para mais de vinte anos. Admiro a capacidade dos políticos portugueses falarem, falarem, falarem (o Asterix dizia «falazarem») e ninguém os confrontar com o que (não) fazem, (não) fazem, (não) fazem. Nem fazem nem deixam fazer, dupla incapacidade, duplo espanto, duplo desgosto, duplo esgoto.
Continuou bem: um grande almoço no Maria Perre (ou coisa que o valha) em Viana do Castelo e uma tarde na Centésima Página, em Braga, uma livraria que é como todas deviam ser e algumas são: ponto de confluência de muitas artes, muitos saberes.
Ou seja: um dia a fingir que sou rico, depois destes meses todos a fingir que sou pobre.
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Está uma frente a passar, não pára de chover, refugio-me na livraria.
- Refugias-te de quê?
- Do tempo e dos ruídos do tempo e do mundo.
- A livraria é um mundo.
- A livraria é um oásis, não é o mundo.
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Hoje Caminha caíu-me em cima. Caíu a ficha, como eles dizem. Lembrei-me da canção do Cohen:
«I've seen the future.
It's murder.»
Tenho sorte: há um oásis em Caminha e não é uma livraria.
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- Tenho problemas gravíssimos. Inexplicáveis. Não diga a ninguém, por favor. Por exemplo: não vejo nada. Já nem um par de mamas consigo ver sem o apalpar. As mulheres queixam-se, reclamam, algumas até chamam a polícia. Só me resta beber. É daí que vem o «inúmeros»: são muitos copos, todos os dias, todas as noites. Porém, verdade seja dita: beber não é um problema. Não ver é. Não ouvir também. Não oiço nada. Nunca ouvi, para dizer a verdade, mas antes escolhia o que não ouvia. Hoje não. Tudo me escapa. Não vejo, não oiço e pouco falo. Toco. Mamas na rua, livros que não consigo ler na livraria, discos que só aos berros me dizem porque os oiço. Não diga a ninguém por favor: as pessoas não gostam de reclusos, de eremitas internos. Não sabe o que é um eremita interno? É alguém que se encerrou um dia no seu próprio corpo ou que o seu próprio corpo encerrou um dia. A literatura está cheia de exemplos, a música também. E o cinema. O teatro. Só a escultura escapa a esta maldição: ninguém acredita que dentro da estátua de mármore ou de bronze há um corpo vivo. Um corpo, vivo ou morto. Por isso me refugio no álcool. Enfim, refugiar não é a palavra certa. V. compreende, não é? Antes fujo, a cavalo no vinho. A cavalo na música. A cavalo na noite, esta noite, deserta como um inferno sem chamas. Lembra-se do Celan:
«Senhor, estamos perto,
perto e ao alcance.
Já alcançados, Senhor,
agarrados um ao outro, como se
o corpo de cada um de nós
fosse o teu corpo, Senhor.
Reza, Senhor,
reza-nos,
estamos perto.
Afastámo-nos com o destino do vento,
afastámo-nos para nos inclinar
nas grutas e nas crateras.
Fomos beber, senhor.
Era sangue, era
o que derramaste, Senhor.
Brilhava.
Lançava a tua imagem para os nossos olhos, Senhor.
Olhos e boca estão abertos, Senhor.
Bebemos, Senhor.
O sangue e a imagem que estava no sangue, Senhor.
Reza, Senhor.
Estamos perto.»
Não diga a ninguém. Vou confessar-lhe qualquer coisa que nem a Deus disse: só gosto dos poetas na última fase das suas vidas. Enfim, há excepções: Herberto Helder, por exemplo. São poucas. Os poetas aprendem a escrever e nós a lê-los. É uma aprendizagem mútua, por assim dizer. Pense em Tamen, em Júdice. A vida é um imenso alambique e as últimas gotas destiladas são as melhores. Já o Outro o dizia: «Os últimos são os primeiros.» Há que aprender a viver devagar, morrer devagar, olhar devagar, tocar, ouvir. Chorar. Sobretudo chorar devagar. Com vagar. Ler. Escrever. Amar. Morrer. Devagar.