4.4.25

Diário de Bordos - Caminha, Alto Minho, Portugal, 04-04-2025

O dia começou com uma seca de duas horas a ouvir gente falar da «economia azul», discurso que conheço vai para mais de vinte anos. Admiro a capacidade dos políticos portugueses falarem, falarem, falarem (o Asterix dizia «falazarem») e ninguém os confrontar com o que (não) fazem, (não) fazem, (não) fazem. Nem fazem nem deixam fazer, dupla incapacidade, duplo espanto, duplo desgosto, duplo esgoto.

Continuou bem: um grande almoço no Maria Perre (ou coisa que o valha) em Viana do Castelo e uma tarde na Centésima Página, em Braga, uma livraria que é como todas deviam ser e algumas são: ponto de confluência de muitas artes, muitos saberes.

Ou seja: um dia a fingir que sou rico, depois destes meses todos a fingir que sou pobre.

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Está uma frente a passar, não pára de chover, refugio-me na livraria.

- Refugias-te de quê?
- Do tempo e dos ruídos do tempo e do mundo.
- A livraria é um mundo.
- A livraria é um oásis, não é o mundo.

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Hoje Caminha caíu-me em cima. Caíu a ficha, como eles dizem. Lembrei-me da canção do Cohen:
«I've seen the future.
It's murder.»

Tenho sorte: há um oásis em Caminha e não é uma livraria.

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- Tenho problemas gravíssimos. Inexplicáveis. Não diga a ninguém, por favor. Por exemplo: não vejo nada. Já nem um par de mamas consigo ver sem o apalpar. As mulheres queixam-se, reclamam, algumas até chamam a polícia. Só me resta beber. É daí que vem o «inúmeros»: são muitos copos, todos os dias, todas as noites. Porém, verdade seja dita: beber não é um problema. Não ver é. Não ouvir também. Não oiço nada. Nunca ouvi, para dizer a verdade, mas antes escolhia o que não ouvia. Hoje não. Tudo me escapa. Não vejo, não oiço e pouco falo. Toco. Mamas na rua, livros que não consigo ler na livraria, discos que só aos berros me dizem porque os oiço. Não diga a ninguém por favor: as pessoas não gostam de reclusos, de eremitas internos. Não sabe o que é um eremita interno? É alguém que se encerrou um dia no seu próprio corpo ou que o seu próprio corpo encerrou um dia. A literatura está cheia de exemplos, a música também. E o cinema. O teatro. Só a escultura escapa a esta maldição: ninguém acredita que dentro da estátua de mármore ou de bronze há um corpo vivo. Um corpo, vivo ou morto. Por isso me refugio no álcool. Enfim, refugiar não é a palavra certa. V. compreende, não é? Antes fujo, a cavalo no vinho. A cavalo na música. A cavalo na noite, esta noite, deserta como um inferno sem chamas. Lembra-se do Celan:

«Senhor, estamos perto,
perto e ao alcance.

Já alcançados, Senhor,
agarrados um ao outro, como se
o corpo de cada um de nós
fosse o teu corpo, Senhor.

Reza, Senhor,
reza-nos, 
estamos perto.

Afastámo-nos com o destino do vento,
afastámo-nos para nos inclinar
nas grutas e nas crateras.

Fomos beber, senhor.

Era sangue, era
o que derramaste, Senhor.

Brilhava.

Lançava a tua imagem para os nossos olhos, Senhor.
Olhos e boca estão abertos, Senhor.
Bebemos, Senhor.
O sangue e a imagem que estava no sangue, Senhor.

Reza, Senhor.
Estamos perto.»

Não diga a ninguém. Vou confessar-lhe qualquer coisa que nem a Deus disse: só gosto dos poetas na última fase das suas vidas. Enfim, há excepções: Herberto Helder, por exemplo. São poucas. Os poetas aprendem a escrever e nós a lê-los. É uma aprendizagem mútua, por assim dizer. Pense em Tamen, em Júdice. A vida é um imenso alambique e as últimas gotas destiladas são as melhores. Já o Outro o dizia: «Os últimos são os primeiros.» Há que aprender a viver devagar, morrer devagar, olhar devagar, tocar, ouvir. Chorar. Sobretudo chorar devagar. Com vagar. Ler. Escrever. Amar. Morrer. Devagar.

3.4.25

A monte

Ando a monte. Fujo da vida como se não houvesse morte.

Portanto

Se ela fosse a minha noite dormiria todas as noites com ela, nela. Mas não é. Nem minha, nem noite. É o dia resplandecente, o sol que o ilumina, esse dia tão luminoso quanto eu sou a escuridão. 

(Dia sem noite, portanto.)

O campo e os comboios

Viver no campo tem as suas vantagens, mas eu aconselho quem não tem nem quer ter carro a pensar duas vezes. O transporte ferroviário no nosso país é ligeiramente melhor do que o do Benin e talvez do que o da Gâmbia, mas está longe de ser satisfatório para quem acredita estar na Europa. 

Nunca mais me queixarei da "pontualidade" da CP, juro (aspas porque é irónico). Estar num comboio já é um bambúrrio.

Isto dito: sempre é melhor do que Mértola, que nem comboios tem.

Peregrinações

Não me importaria nada de fazer o "caminho de Santiago" (aspas porque cito) mas de avião. Ou de comboio, vá. A pé, de bicicleta, a cavalo num burro ou só a cavalo, de trotineta,  patins, de carro ou de mota dispenso, obrigado.

Apetece-me dizer o que o meu Pai dizia à minha Mãe quando a ia deixar à igreja para a missa semanal: "Reza por mim, mulher, que eu estou velho". Depois ia para o Refeba, ali ao lado, rezar a outros deuses e juntar-se a outros peregrinos.

2.4.25

À distância

Sempre vivi à distância de tudo e de todos. Até de mim.

Isto dito, amo-te

Não há expressão que tão bem demonstre a insuficiência da linguagem como "Isto dito".

Isto dito nada está dito, tudo está por dizer, falta dizer qualquer coisa, é preciso esclarecer o que antes ficou obscuro.

Isto dito: a linguagem é uma permanente morte na praia. Nada nada nada e morre à chegada. Não tem salvação. 

Isto dito: o que acabei de dizer não é mentira, é só insuficiente. 

Isto dito: há palavras a que não se pode acrescentar nada, que não aceitam clarificações nem complementos.

Por exemplo: amo-te.

Dormir, venenos

Toda a gente quer dormir mas quando se lhe propõe dormir para sempre, aí já ninguém quer. Ou muito poucos, vá lá. Ora se dormir fosse bom, dormir para sempre seria melhor, ou não?

Não sei. Talvez não. Talvez dormir seja bom exactamente por não ser para sempre. É como os venenos, que dependem da dose. Se esta for pequena são um medicamento e só se tornam venenosos se a dose aumentar. 

É como tudo, na verdade: não há nada que não  beneficie de comedimento, de matizes. Até as vitórias precisam de derrotas intercaladas para não se julgarem eternas.

1.4.25

Dispersas diversas

Dispenso o uso de bloco-notas, gravador ou o que quer que seja para anotar ideias.
É uma das vantagens de ter apenas uma ideia por dia.
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Dizem que sou gozão. Nada mais longe da verdade. Sou sarcástico, o que é diferente.
Ao contrário da troça, o sarcasmo é um elogio à inteligência de quem ouve.
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Em Portugal envia-se um e-mail a alguém e a resposta demora dias ou semanas a chegar. Faz-se a mesma coisa para lá dos Pirinéus e a resposta é imediata, chega no mesmo dia ou no seguinte. A explicação fornecida habitualmente pelos destinatários portugueses é a carga de trabalho. Estamos todos assoberbados de trabalho.

Já "lá fora" ninguém faz nada. Deve ser por isso que nós somos ricos e eles uns tesos.

31.3.25

Aprender a ler

 É isso: aprender a ler. Preciso de aprender a ler. Resta saber o quê,  que letras, que alfabeto. Conheço o das estrelas, o das nuvens, o das vagas do mar que me trazem notícias de onde vem o vento, qualquer que ele seja.  Conheço o alfabeto do teu corpo, de A a Z e de volta a A. Sei ler o Sol - ou melhor, as sombras que ele deixa, porque a luz cega. Não é ela que vemos, é aquilo que ela deixa ou quer que vejamos. Velhaca, a luz. Sei ler o tempo - não o dos relógios mas o outro, o que não se vê nem se ouve e se dá apenas a quem sabe que ele existe. Esse tempo que vejo no teu sorriso, na tua pele, esse tempo que nos leva aos princípios e aos confins e nos ensina que vai e vem, ir e vir são irmãos siameses. Andam sempre juntos, não vai um sem vir o outro. 

Sei ler a vida. Só me falta aprender a ler a morte.

30.3.25

Diário de Bordos - Caminha, Alto Minho, Portugal, 31-03-2025

O peixe chama-se negrão (aparentemente é uma taínha) e está muito bem grelhado apesar de ser escalado, a praia Moledo, o restaurante Palma, o vinho branco é excelente, estou sozinho mas não estou só, hoje de manhã trabalhei para  a minha nova casa - arrumei a escrevaninha que recebi da minha Mãe aos catorze anos - e para a tarde tenho o trabalho pensado e planeado; só falta escrevê-lo. Está calor - tive de arregaçar as mangas, no sentido literal. Se a vida fosse só e sempre assim ninguém compreenderia a origem das depressões. Infelizmente não é.

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Tenho imensa pena das pessoas que têm de ver televisão por motivos profissionais e não tenho nenhuma de quem a vê por querer. É que não são apenas os conteúdos  - anúncios de produtos que não interessam pensados e executados por e para cérebros digamos limitados, notícias que se prolongam por horas e horas e são todas iguais por muito zapping que se faça - a insistência na radio trottoir também conhecida por rádio-mentecapto. É na forma também. Hoje, por exemplo, ouvi um locutor - um profissional, note-se, não um transeunte - dizer que um determinado período na vida de uma senhora qualquer tinha sido muito desafiante. Bolas! Desafiante? Vai dar de comer aos papagaios, pá. Difícil, penoso, laborioso, angustiante, aflitivo  e muitos mais não te chegam?

(Não quer dizer que me considere melhor do que os outros. Antes pelo contrário, considero-me pior do que a média. É por isso que identifico a má qualidade do medium: conheço-me e sei o que é mau. Há um programa e só um que me parece decente. Infelizmente é na televisão francesa. Chama-se La grande librairie, é o digno herdeiro do Apostrophes e eu não sei como vê-lo quando estou em Portugal.)

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Esta é aproximadamente a vigésima quinta mudança em menos de cinco anos. A próxima vai ser para um sítio muito quente, decorado com cruzes, fitas pretas e cheio de amigos a chorar.

Ou a rir e bater palmas, vá lá saber-se.

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Março dura sempre menos tempo do que Fevereiro. Deve ser por causa das alterações climáticas.

Ou do neoliberalismo, como sábia e aparentemente invocou  o Boaventura para justificar a forma como tratava as mulheres.

("Aparentemente" é força de expressão. Não o ouvi mas já li duas pessoas que o mencionaram.)

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O estúpido do Trump, a continuar assim, não vai conseguir fazer aquilo que se propôs fazer.

O que de maneira geral é pena.

26.3.25

Solidão, solidões

Não gosto nada da solidão mas aprecio muito estar só.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 26-03-2025

Como toda a gente que faz o que eu faço, viajo muito de avião; como toda a gente que tem a família num país diferente daquele - ou daqueles - aonde vive e trabalha. Passo a vida em aviões e desenvolvi uma razoável aversão a tudo oq ue está com eles relacionado, logo desde a porta dos aeroportos. Durante muitos anos arranjava-me para chegar à última da hora, muitas vezes só não perdendo o bicho devido a correrias insensatas, a ultrapassagens em filas. Cheguei a telefonar para um check in, em Londres, a pedir-lhes para não o fechar que estava a caminho. A senhora ficou tão siderada que esperou por mim. Se bem me lembro, o avião não saiu atrasado e se saiu foi pouco. Esse tempo acabou. Agora é muito mais frequente chegar demasiado cedo ao aeroporto, como hoje. Ainda por cima, estando de maré baixa não posso beneficiar dos magníficos produtos a preços magníficos que o aeroporto de Genebra propõe aos passageiros com tempo - e dinheiro, claro. De maneira faço aquilo que faço sempre, qualquer que esteja o estado da maré: observo os companheiros de (para mim) infortúnio, tento identificar as línguas que oiço (cada vez menos...) e escrevo meia dúzia de linhas de disparates, sempre alivia a pressão. 

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Saio de Genebra como sempre: meio melancólico, meio feliz, meio indeciso sobre qual dos dois estados preferir. S. estando a maior parte do tempo fora em trabalho passo muito tempo sozinho, o que é uma benção; dou longos passeios por estas ruas simultaneamente conhecidas e novas; vejo amigos (poucos, mas dos mais queridos); faço fondue de queijo, um ritual que nem no Verão dispenso (isto discute-se. S. nem sempre está de acordo...); e agora - desde que os tenho - mormente, vejo os netos. Insuficientemente porque não moram em Genebra, mas vejo-os e estou com eles. São uma espécie de extensão do prazo de pagamento de uma dívida e tento aproveitá-la ao máximo.

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No salão do livro contactei uma revista de viagens que paga os artigos. Se pagar a tradução vale a pena; se não pagar, não vale. Ou então recomeço a escrever directamente em francês, perspectiva que não me atrai muito porque esta língua é tão bonita quanto maldita de ecrever.

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Ir ao supermercado aqui é uma dupla dor d'alma: os produtos "bio" (aspas porque cito) invadiram tudo. Como se os preços não fossem suficientemente dementes com os não-bio.

24.3.25

Incapacidade

Sou livre por absoluta incapacidade de o não ser e isso paga-se caro. É um handicapp, um defeito de fabrico.

23.3.25

Adormecer, a ponte do sono nascente

Para adormecer, F. põe-se de sentinela numa das extremidades da ponte que o liga à noite. É por ela que o sono chega. A vigília é sui generis: consiste em relaxar todos os músculos do corpo, um a um. Tarefa a que F. se dedica com a aplicação que põe em tudo o que faz. Começa por fechar os olhos, deitar-se de lado, cruzar os braços e pôr as mãos nos ombros - a direita no esquerdo e a esquerda no direito - encolher as pernas, bem dobradas, como se quisesse levar os joelhos ao queixo, respirar fundo durante pelo menos um minuto e depois distender-se lenta mas completamente. O sono chega pela tal ponte - a ponte do sono nascente, como ele lhe chama - umas vezes ruidosamente, outras muito de mansinho. 

Os obstáculos ao avanço do sono são dois: palavras e números. Nunca andam juntos, deo gratias. E não atacam todo as noites. Só algumas, aquelas em que a ponte fica mais longa.

(Cont.)

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 23-03-2025

A primeira surpresa do dia foi no autocarro para o salão do livro: ia cheio a deitar por fora. Domingo, nove da manhã. A segunda foi já no salão propriamente dito: no bengaleiro não paguei nada, porque "sou escritor" (aspas porque me cito). Ou seja: poupei nove francos, pouco mais de a nesma coisa em euros. Ainda há quem diga que ser escritor não compensa financeiramente. 

Do salão não guardo muitas recordações: meia dúzia de cartões de visita, uma reunião amanhã (para as fotografias). Não incluo nesta ausência, nesta dúvida, nesta ambivalência os momentos que passei com a minha filha, inapagáveis manifestações da alquimia genética. 

Nem o facto de me ter deixado enganar por um vendedor e ter comprado um livro que é uma merda - si tant est qu'il y a des bouquins merdiques, chose que je sais très bien n'existe pas. É simplesmente um livro de que não gosto. Tenho uma desculpa: fala do Burundi e do Ruanda; duas: o vendedor era de uma eficácia redoutable; três: a L. também o queria. Combinámos que o leria e lho passaria. Comecei a folheá-lo no autocarro de volta para casa e lamentei imediata e amargamente a compra. O que me pôs perante um dilema paterno-interessante: dou-lhe aquela porra ou empresto-lha, somente? Opto por emprestar-lha, somente. Por um lado não dou coisas de que não gosto e por outro pode ser que dali saque qualquer informação interessante. 

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Hoje à noite há fondue de queijo. Vem cá a G. Já bebi um kirsch, para ir preparando o estômago. 

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Amanhã: reunião na Vent des Routes, ver se querem vender as caixas de fotografias.

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Agora; sesta, ver se estes passeios  interiores me servem para alguma coisa. 

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(Cont.)

22.3.25

Sistemas

F. procurava palavras como um gato ratos e elas fugiam-lhe como ratos do gato. Às tantas imaginou uma linha que não o era porque tinha três dimensões, enrodilhada sobre si própria. Apesar de ser caótica imprimiu-lhe um movimento turbilionário e esperou. As palavras, curiosas como são, começaram a entrar, mas devagar. F. pensou que lhes devia alterar a viscosidade a fim de aumentar a fluidez daquele circuito. Contudo, a força centrífuga atirava-as para as paredes do túnel e o débito do sistema era baixo. Um pouco de vibração fazia visivelmente falta. Como, porém, introduzir vibração num dispositivo giratório? Como vencer a força giroscópica? F. decidiu parar o movimento giratório, introduzir pedras mais leves no tubo, agitá-lo caótica e aleatóriamente ("para qualquer coisa um pleonasmo servirá", pensou).

Conseguiu. Do outro lado, pouco a pouco, começaram a aparecer vocábulos. Primeiro monossílabos; depois, progressivamente, o número de sílabas comecou a crescer, à medida que o peso das palavras metidas no tubo ia aumentando. 

Baptizou o mecanismo com o nome de Sistema digestivo para palavras, patenteou-o e ganhou uma fortuna. No escritório das patentes o funcionário estava reticente. Coçava a cabeça, que tinha redonda e guedelhuda e perguntava: "mas para que é que isto serve?"

Pacientemente, F. explicou-lhe que servia para produzir a mesma coisa do que o outro sistema digestivo mas com matéria prima diferente. 

Falares, gravatas e outros rigores

Por onde começar a analogia - escolher as palavras como se escolhem as gravatas ou estas como aquelas? Talvez não haja um princípio. Talvez isto esteja tudo ligado, redondo, «inteiro» como dizia o outro e se deva escolher do mesmo modo gravatas, palavras, cafés, livros, vinhos, uma rota - e não continuo a enumeração por pudor. Talvez se possa ir mais longe e escolher os dias, a Lua, o vento com o cuidado e o rigor que se põe na escolha de uma gravata, na elaboração do nó de maneira a que a extremidade fique no sítio certo, o pescoço respire e possa voltar-se (discretamente, muito discretamente) para observar um pormenor que passa fugaz no sentido oposto. Talvez o rigor se aplique tanto ao trabalho que a sorte dá como ao esforço que o azar requer, são de igual intensidade; ou à escolha de uma tecla no piano em detrimento da do lado, à selecção de um olhar em vez de outro - porque o olhar é mais importante do que os olhos que olham e deve escolher-se o olhar de que somos alvo tal como escolhemos o poema que queremos ler, dizer ou ouvir. 

Talvez no fundo a arte seja viver engravatado sem ser engravatado. Sem, sequer, ter uma gravata.

O vento, os caminhos

No inverno - e em muitos dias da Primavera e do Outono - a luz de Genebra é muito branca, parece diluída em clara de ovo. Isto deve-se às nuvens altas. Estão sempre por cima da cidade, como se a quisessem proteger de qualquer coisa demasiado violenta, sabe-se lá o quê. Do Sol não é de certeza, estamos a quarenta e seis graus de latitude. Um grau mais do que o meio caminho entre o Equador e o pólo. Quando aqui vivia achava isto desesperante. Agora, que venho cá de passagem, de visita, gosto. Tudo fica suave, arredondado, como se não houvesse ângulos agudos ou arestas na geometria da cidade. As formas e as sombras diluem-se e agora, Primavera, as árvores ainda nuas contrastam com as cores garridas das ubíquas flores. Ando muito a pé, como se fosse um turista e vejo melhor os contrastes, as construções modernas, regra geral feias lado a lado com as antigas, lindas, maciças e imponentes, de janelas enormes para deixar entrar essa tal luz.  Dentro desses apartamentos tudo é suave também, tudo é fluido, regular, ordenado, sem arestas. (Não é, mas isto é literatura e não sociologia, antropologia ou outra logia. É assim que vejo a cidade e lhe oiço a ausência de ruídos). Na verdade agora buzina-se mais do que há vinte anos mas os automóveis eléctricos, as bicicletas e as trotinetas - omnipresentes, como as flores - absorveram a diferença. Não há muita gente nas ruas. Ou trabalham ou estão em casa. Nos cafés só reformados, com a óbvia e natural excepção das ruas perto da universidade. Penso no que a cidade mudou, no que eu mudei e apercebo-me com espanto que essas duas mudanças nos aproximaram em vez de nos afastar.

A ausência de arestas - visíveis - tem efeitos nas pessoas, consequências que por sua vez a causam. Este movimento circular, harmonioso, atraente, quase uma vertigem, é magnético, faz-me sentir como se estivesse a cair no poço da Alice. 

Fui à livraria de viagens. Chama-se Le Vent des Routes. O nome é adequado a um marinheiro que sempre andou com, pelo ou contra o vento.